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Cenário e atualidade

Dívida bruta chega a 82,9% do PIB, e as medidas anunciadas nas últimas semanas somam mais 0,45 ponto se saírem do papel

Real, 82,9% do PIB em agosto, alta de 0,3 ponto no mês e de 4,2 no ano. Estimado, 83,4%, se as medidas com custo primário anunciado forem executadas. E um dado que muda a leitura, só os juros da dívida acrescentaram 0,8 ponto em um único mês.

Fran Romancini

Fran Romancini

Educadora Financeira · CPA-20 · 20 anos no sistema financeiro

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Dívida bruta a 82,9% do PIB. Medidas novas somam mais 0,45 ponto. Real 82,9%. Estimado 83,4%. Juros +0,8 no mês.

O que aconteceu

Nesta terça-feira, 29 de setembro, o Banco Central divulgou as estatísticas fiscais de agosto. A dívida bruta do governo geral, que reúne governo federal, INSS, estados e municípios, chegou a 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma de tudo o que o país produz), o equivalente a R$ 11,1 trilhões. Em julho, estava em 82,6%. No acumulado de 2026, a alta é de 4,2 pontos percentuais. A dívida líquida do setor público, que desconta os ativos do governo, como as reservas internacionais, foi a 69,3% do PIB, perto de R$ 9,2 trilhões. No mês, o setor público consolidado teve déficit primário de R$ 10 bilhões, e o governo central, de R$ 14,7 bilhões.

O número que importa

O Banco Central abre o que moveu a dívida no mês. Os juros nominais acrescentaram 0,8 ponto percentual do PIB. A desvalorização do câmbio, 0,1 ponto. O crescimento do PIB nominal tirou 0,5 ponto. O saldo foi a alta de 0,3. O que mais pesa na dívida hoje é o juro sobre o estoque antigo, muito mais do que o gasto novo: com a Selic em 13,75% ao ano sobre R$ 11,1 trilhões, o custo de juros fica entre R$ 1,3 trilhão e R$ 1,5 trilhão por ano, acima de R$ 100 bilhões por mês.

Esse é o pano de fundo para ler as medidas anunciadas pelo governo federal nas últimas semanas. Levantamentos de imprensa somam entre R$ 193,8 bilhões e R$ 411,2 bilhões, dependendo do que entra na conta, mas a maior parte desses valores é crédito (linhas do BNDES, o banco público de fomento, da Caixa e do FGTS), que não vira gasto do Tesouro na mesma proporção. Separando só o que tem custo primário informado por fonte oficial, o total fica em R$ 60,6 bilhões entre 2026 e 2027. Cada R$ 134 bilhões equivalem a 1 ponto do PIB. Portanto, 0,45 ponto.

O real e o estimado

Dívida bruta em % do PIB, com e sem as medidas anunciadas

ItemCusto informadoEm pontos do PIB
Dívida bruta em agosto (dado real, Banco Central)R$ 11,1 trilhões82,9%
Reajuste de 15% no Bolsa Família (2026 e 2027)R$ 5,8 bi + R$ 22,7 bi+0,21
Desenrola 3.0 (renegociação de dívidas)R$ 15,0 bi+0,11
Subsídio de R$ 1 por litro ao diesel (ampliação)R$ 10,5 bi+0,08
Gás do Povo (botijão gratuito, 2026)R$ 5,1 bi+0,04
Canetas para obesidade no SUS, o Sistema Único de Saúde (por ano)R$ 1,5 bi+0,01
Subtotal das medidas com custo primário informadoR$ 60,6 bi+0,45
Estimado: dívida de agosto mais as medidas, tudo o mais constante83,4%
Projeção da IFI para dezembro de 2026 (feita em 17/09, antes da maior parte dos anúncios)82,5%
Projeção da IFI para dezembro de 202786,4%
Projeção da IFI para 2027 mais as medidas acima86,8%

Conversão a R$ 134 bilhões por ponto do PIB, a partir do PIB nominal implícito no dado do Banco Central (R$ 11,1 trilhões dividido por 82,9%). Custos informados pelos Ministérios do Planejamento e da Saúde e por cobertura pública. Gasolina e etanol não entram: a defasagem desses preços não tem linha no Tesouro, o custo recai sobre a Petrobras. Estimativa didática, não projeção oficial.

Dois pontos completam a leitura. O governo afirma que as medidas com impacto primário neste ano não trazem risco fiscal, porque projeta superávit de R$ 10,8 bilhões para 2026, e que o subsídio ao diesel será coberto por receitas extraordinárias do petróleo, estimadas pela Fazenda em R$ 67,5 bilhões em 2026. A IFI (Instituição Fiscal Independente, órgão técnico do Senado), no relatório de 17 de setembro, projeta déficit primário de R$ 86,1 bilhões em 2027, contra o superávit de R$ 18,6 bilhões previsto na proposta de orçamento, e calcula que seria preciso contingenciar R$ 35,7 bilhões para cumprir a meta.

Sobre os combustíveis, o quadro é este. Segundo a Abicom (associação dos importadores de combustíveis), o diesel vendido pela Petrobras chegou em setembro a R$ 3,89 por litro abaixo do preço de paridade de importação, a maior defasagem da série, e a gasolina ficou 28% abaixo, R$ 0,85 por litro, na leitura de meados do mês. Só o diesel tem subsídio direto do Tesouro, criado pela MP (Medida Provisória) 1.391, de 11 de setembro, com R$ 1 por litro por 30 dias, já prorrogado por mais 30, e um primeiro pagamento de R$ 2,3 bilhões à Petrobras em 25 de setembro. Gasolina e etanol, cujo preço acompanha o da gasolina na bomba, não têm subsídio: a diferença sai do resultado da Petrobras, e a União, como acionista majoritária, recebe menos dividendos. É um custo fiscal indireto, e por isso não aparece na tabela acima.

O que isso muda no seu bolso

A dívida é o motivo de o Brasil pagar 13,75% de juro básico enquanto os Estados Unidos pagam cerca de 4%. Quanto maior a percepção de que a dívida cresce sem freio, mais juro o mercado exige para financiar o Tesouro, e esse juro é o mesmo que remunera o seu CDB (Certificado de Depósito Bancário) e o mesmo que encarece o seu financiamento. Para quem tem renda fixa, dívida alta significa juro alto por mais tempo, o que sustenta o rendimento do pós-fixado. Para quem tem dívida, significa crédito caro por mais tempo. E para todo mundo, mais de R$ 100 bilhões por mês em juros é dinheiro que deixa de ir para saúde, educação e infraestrutura antes de qualquer decisão de gasto novo ser tomada.

Fontes

  • Estatísticas fiscais de agosto de 2026, dívida bruta de 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões), dívida líquida de 69,3%, déficit primário e decomposição da variação mensal: Banco Central do Brasil, 29 de setembro de 2026.
  • Custo do reajuste do Bolsa Família (R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027): Ministério do Planejamento e Orçamento, setembro de 2026.
  • Custo do Desenrola 3.0 (R$ 15 bilhões) e do Gás do Povo (R$ 5,1 bilhões em 2026): cobertura pública, setembro de 2026.
  • Ampliação do subsídio ao diesel (R$ 10,5 bilhões) e receitas extraordinárias do petróleo (R$ 67,5 bilhões em 2026): Ministério do Planejamento e Ministério da Fazenda, setembro de 2026. MP 1.391/2026 e Portaria MF 2.813.
  • Pagamento de R$ 2,3 bilhões à Petrobras em 25 de setembro de 2026 referente à subvenção ao diesel: cobertura pública.
  • Custo estimado das canetas para obesidade no SUS, R$ 1,5 bilhão por ano: Ministério da Saúde, 28 de setembro de 2026.
  • Levantamentos do total das medidas anunciadas (R$ 193,8 bilhões, R$ 271 bilhões e R$ 411,2 bilhões, conforme metodologia): imprensa, setembro de 2026.
  • Defasagem do diesel (R$ 3,89 por litro) e da gasolina (28%, R$ 0,85 por litro): Abicom, setembro de 2026.
  • Projeções de dívida bruta (82,5% em 2026 e 86,4% em 2027), déficit primário de R$ 86,1 bilhões em 2027 e contingenciamento necessário de R$ 35,7 bilhões: IFI, Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 116, 17 de setembro de 2026.
  • Superávit primário projetado pelo governo para 2026 (R$ 10,8 bilhões): Ministério da Fazenda, setembro de 2026.

Sobre a autora

Fran Romancini passou 20 anos dentro do sistema financeiro e hoje ensina do outro lado da mesa. Conheça a história completa.

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