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Comportamento e decisão

Por que a poupança ainda ganha na cabeça das pessoas, mesmo perdendo no bolso

O CDB já reúne quase o triplo do dinheiro que está na poupança. Mesmo assim, a poupança continua cheia de contas, 65,6% delas com até R$ 100 guardados. O motivo não é matemática, é inércia.

Fran Romancini

Fran Romancini

Educadora Financeira · CPA-20 · 20 anos no sistema financeiro

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Atualizado em

A situação concreta

Uma pessoa sabe, ou desconfia, que a poupança rende pouco. Já ouviu falar de CDB, já viu alguém comentar que rende mais. Mesmo assim, o dinheiro continua lá, parado na mesma conta de sempre. O dinheiro fica não porque ela decidiu que a poupança é a melhor opção, mas porque tirar exige uma decisão que ninguém cobra dela.

Os números que expõem o padrão

O dinheiro sério já mudou de casa. Em junho de 2026, a poupança somava R$ 1,02 trilhão no país, segundo o Banco Central, com saques líquidos de R$ 39,3 bilhões só no primeiro semestre, mais gente tirando do que colocando. No mesmo período, o CDB (Certificado de Depósito Bancário) sozinho somava R$ 2,7 trilhões, quase o triplo da poupança, e a renda fixa privada como um todo (CDB, LCI, LCA, RDB e LF) chegava a R$ 6,3 trilhões, segundo a B3.

Cofrinho de porcelana rosa com moedas ao lado, representando a poupança
Poupança: R$ 1,02 trilhão no país
Pilhas de moedas em ordem crescente, representando o crescimento do volume em CDB
CDB: R$ 2,7 trilhões, quase o triplo

E tem um número que expõe o tamanho do hábito: 65,6% das contas de poupança no Brasil têm até R$ 100 guardados. É resíduo, o troco que sobra e nunca sai dali, não dinheiro parado por estratégia.

O nome do viés

Isso tem nome: inércia, ou viés do status quo. É a tendência de manter uma escolha só porque ela já está feita, mesmo quando existe uma opção melhor disponível. A poupança se aproveita disso de um jeito estrutural: toda conta bancária já vem com ela vinculada por padrão. Ninguém abre uma poupança, ela simplesmente já está lá. Migrar para outra aplicação exige abrir um aplicativo, escolher um produto, confirmar uma operação. A poupança não pede nada disso, e quanto menos uma decisão pede esforço para não ser tomada, menos ela é tomada.

O que a inércia custa

Taxas conferidas em 4 de setembro de 2026. CDI a 13,90% ao ano e TR em torno de 0,17% ao mês, ambos apurados no Banco Central.

Pegue R$ 5.000 parados na poupança por um ano. Com a regra atual (0,5% ao mês mais a TR), esse valor vira aproximadamente R$ 5.417. O mesmo valor num CDB de 100% do CDI, com o CDI na faixa de 13,90% ao ano, renderia R$ 695 brutos, e depois de descontados 17,5% de imposto de renda (a alíquota da faixa de um ano), fecharia em torno de R$ 5.573 líquidos. A diferença passa de R$ 150 num único ano, num valor que boa parte das contas de poupança do país nem chega a ter guardado.

Como sair da inércia, com micro-hábitos

A saída não é uma decisão única e grande, que é justamente o tipo de decisão que a inércia trava. É trocar uma inércia por outra, a favor.

Defina um valor de colchão que fica na poupança por segurança, e mova o resto. Pode ser só uma parte, R$ 500 ou R$ 1.000, o suficiente para uma emergência rápida já resolve a parte emocional de ter algo à mão.

Configure uma transferência automática recorrente para um CDB de liquidez diária, do mesmo jeito automático que a poupança já funciona hoje. Isso tira a decisão consciente da equação, que era o problema desde o início.

Comece pequeno. Mova uma fração do valor primeiro, sinta que o processo é simples, e só depois pense em mover o resto. A inércia perde força quando o primeiro passo já não parece grande.

Fontes

  • Saldo da poupança em junho de 2026, R$ 1,02 trilhão: Banco Central do Brasil.
  • Saques líquidos de R$ 39,3 bilhões na poupança no primeiro semestre de 2026: Banco Central do Brasil, divulgado em julho de 2026.
  • Estoque de CDB em R$ 2,7 trilhões em junho de 2026, alta de 8% no ano: B3.
  • Estoque total de renda fixa privada bancária (CDB, LCI, LCA, RDB, LF) em R$ 6,3 trilhões em junho de 2026: B3.
  • 65,6% das contas de poupança no Brasil com até R$ 100 guardados: levantamento com base em dados do setor bancário, 2026.
  • Taxa CDI na faixa de 13,90% ao ano: Banco Central do Brasil, série 4389, consultado em 3 de setembro de 2026.
  • Taxa Referencial (TR) em torno de 0,17% ao mês: Banco Central do Brasil, referência de agosto de 2026, consultado em 4 de setembro de 2026.
  • Tabela regressiva do imposto de renda em renda fixa: Receita Federal, Instrução Normativa vigente.

Sobre a autora

Fran Romancini passou 20 anos dentro do sistema financeiro e hoje ensina do outro lado da mesa. Conheça a história completa.

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Este cálculo saiu da Conta da Semana.

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