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Comportamento e decisão

Por que o dinheiro do 13º ou da restituição do IR é gasto diferente do salário

R$ 3.000 por ano, investidos em vez de gastos como "sobra", viram R$ 262.060 em 20 anos, só investindo 100% do valor. Mesmo guardando 30%, o total passa de R$ 78.600. A diferença inteira está em como o cérebro rotula esse dinheiro.

Fran Romancini

Fran Romancini

Educadora Financeira · CPA-20 · 20 anos no sistema financeiro

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A situação concreta

O 13º salário cai na conta em novembro e dezembro. A restituição do Imposto de Renda cai em algum lote entre maio e setembro. Nos dois casos, o dinheiro é exatamente igual a qualquer outro real do salário mensal: mesmo poder de compra, mesma conta bancária, mesmo CPF. Mesmo assim, a maioria das pessoas trata esse dinheiro de um jeito completamente diferente do salário, com muito menos disciplina, muito mais abertura para gastar sem plano.

O nome do viés

Isso tem nome: contabilidade mental, teoria do economista Richard Thaler. O cérebro não trata dinheiro como um recurso único e fungível. Ele cria categorias mentais separadas, "dinheiro do salário", "dinheiro extra", "dinheiro do prêmio", e aplica uma regra de disciplina diferente para cada categoria, mesmo que o valor dentro da conta bancária seja idêntico.

Dentro dessa teoria existe um efeito mais específico chamado de efeito dinheiro da casa, um termo emprestado do vocabulário de apostas: dinheiro percebido como ganho extra, e não como fruto do esforço mensal comum, é gasto com menos resistência psicológica. O salário carrega o peso do trabalho de todo mês e de compromissos já assumidos contra ele. O 13º e a restituição chegam sem esse peso, o cérebro os rotula como bônus, e bônus é gasto, não guardado.

Onde esse dinheiro costuma ir

Três destinos se repetem, e cada um tem uma razão psicológica por trás.

O primeiro é o consumo de fim de ano, presentes, ceia, roupas novas, decoração. O 13º chega na mesma época do calendário social que mais pressiona o consumo no Brasil, e a proximidade entre o depósito e a data reforça a ideia de que aquele dinheiro "nasceu" para essa finalidade.

O segundo é o eletrônico ou o item de desejo represado o ano inteiro, o celular novo, a televisão, o eletrodoméstico. Como o dinheiro não estava no orçamento mensal, comprar algo fora do orçamento mensal parece consistente com a origem dele, mesmo que o item custe o equivalente a meses de esforço de poupança.

O terceiro é a dívida de cartão de crédito rolando havia meses, quitada de uma vez. Isso parece disciplina financeira, e em parte é, mas o padrão se repete todo ano exatamente porque o gasto do cartão ao longo do ano seguinte também não foi tratado com a disciplina do salário. A restituição vira o conserto anual de um problema que o próprio hábito de contabilidade mental ajuda a criar.

A conta

Taxas conferidas em 24 de setembro de 2026. CDI (indicador que acompanha a Selic dia a dia) a 13,65% ao ano, apurado no Banco Central, série 4389. Simulação com aporte anual fixo e taxa constante pelo período todo, apenas para fins didáticos: nenhuma taxa se mantém igual por 20 anos seguidos na prática, mas o exercício isola o efeito de uma única decisão repetida todo ano.

A conta

R$ 3.000 por ano, investidos em parte ou no total

% investido por anoAporte anualEm 5 anosEm 10 anosEm 15 anosEm 20 anos
30%R$ 900R$ 5.908R$ 17.110R$ 38.349R$ 78.618
50%R$ 1.500R$ 9.847R$ 28.516R$ 63.914R$ 131.030
70%R$ 2.100R$ 13.785R$ 39.923R$ 89.480R$ 183.442
100%R$ 3.000R$ 19.693R$ 57.032R$ 127.829R$ 262.060

Valores brutos, antes de Imposto de Renda, com aporte no fim de cada ano a 100% do CDI constante em 13,65% ao ano. Simulação Finanças com Fran, setembro de 2026.

Mesmo na coluna mais conservadora, guardando só 30% do 13º ou da restituição e gastando os outros 70% sem culpa nenhuma, vinte anos desse hábito acumulam R$ 78.618, valor de nunca ter tratado esse dinheiro como sobra, não de uma vida inteira de sacrifício.

Como aplicar

Antes que o 13º ou a restituição caiam na conta, decida o percentual que vai para o investimento, e transfira esse valor no mesmo dia do depósito, antes de decidir qualquer compra. A decisão tomada com o dinheiro ainda "intacto" tem uma força que a decisão tomada depois, com o saldo já misturado à conta corrente do mês, não tem.

Escolha o percentual pensando no hábito que você quer criar, não no que sobra depois dos planos de consumo. Definir 30% antes de qualquer gasto é mais eficaz do que prometer guardar o que sobrar depois das compras de fim de ano.

Fontes

  • Teoria da contabilidade mental (mental accounting): Richard Thaler, prêmio Nobel de Economia de 2017, autor da teoria original nos anos 1980 e 1990.
  • Efeito dinheiro da casa (house money effect): Thaler e Johnson, pesquisa sobre comportamento de risco com ganhos percebidos como bônus, 1990.
  • Taxa CDI de 13,65% ao ano: Banco Central do Brasil, série 4389, consultada em 24 de setembro de 2026.
  • Calendário de pagamento do 13º salário (novembro e dezembro) e dos lotes de restituição do Imposto de Renda (maio a setembro): Receita Federal e legislação trabalhista vigente.

Sobre a autora

Fran Romancini passou 20 anos dentro do sistema financeiro e hoje ensina do outro lado da mesa. Conheça a história completa.

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Este cálculo saiu da Conta da Semana.

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