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Comportamento e decisão

A bolsa subiu 7,70% em um dia e você quer entrar agora: a conta do excesso de confiança

Quem tinha R$ 10.000 na bolsa na sexta antes do primeiro turno fechou a segunda com R$ 10.770. Quem entrou na terça, convencido de que "era óbvio", tinha R$ 10.018,70 na quinta. Para empatar com um CDB em dois anos, o Ibovespa precisa passar de 258 mil pontos.

Fran Romancini

Fran Romancini

Educadora Financeira · 20 anos no sistema financeiro

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A situação concreta

Segunda-feira, 5 de outubro. O Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) sobe 7,70% em um dia, o grupo da família enche de prints, e alguém que você conhece diz que "estava na cara". Na terça, você abre o aplicativo do banco, olha os R$ 30.000 da reserva rendendo 100% do CDI (indicador que acompanha a Selic, a taxa básica de juros, dia a dia) e move R$ 10.000 para ações. Parece raciocínio, e é um reflexo com nome e preço.

O nome do viés

Excesso de confiança. Depois que um resultado aparece, o cérebro reescreve a memória e passa a tratar o que aconteceu como se fosse previsível desde o início. Esse mecanismo, o viés de retrospectiva, é documentado em experimentos desde os anos 1970: pessoas que conhecem o desfecho de um evento estimam que teriam previsto aquele desfecho com muito mais certeza do que de fato previram antes de saber. A sensação de "eu sabia" vira a sensação de "eu sei", e a segunda é a que move dinheiro.

Esse salto existe porque a alta de 7,70% é informação sobre o passado, e o cérebro a lê como informação sobre o futuro. O preço de segunda-feira já contém o resultado da eleição, o fluxo estrangeiro de R$ 10 bilhões e a nova leitura sobre juros. Nada disso vai acontecer de novo para quem compra na terça. O que sobra para quem entra depois é o próximo evento, que ainda não existe, e o segundo turno de 25 de outubro, que pode andar para qualquer lado.

A versão mais estudada desse viés é a de quem opera muito. Brad Barber e Terrance Odean acompanharam 66.465 famílias com conta em uma corretora americana entre 1991 e 1996: as que mais negociavam tiveram retorno de 11,4% ao ano, contra 17,9% do mercado no mesmo período, e a causa apontada foi o excesso de confiança, que faz a pessoa trocar de posição com frequência pagando custo a cada troca. No Brasil, Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti, da FGV (Fundação Getulio Vargas), acompanharam todas as pessoas que começaram a fazer day trade (comprar e vender no mesmo dia) entre 2013 e 2015 e persistiram por pelo menos 300 pregões: 97% perderam dinheiro, 0,4% ganharam mais do que um caixa de banco, e não houve sinal de aprendizado com a prática. No levantamento seguinte, do início da pandemia a dezembro de 2023, a perda bruta somou R$ 9,9 bilhões, média de R$ 10,2 mil por pessoa.

A conta

Taxas e cotações conferidas em 9 de outubro de 2026. CDI de 13,65% ao ano, apurado no Banco Central, série 4389. Fechamentos do Ibovespa: 206.911,89 pontos em 5 de outubro (alta de 7,70%), 205.835,29 em 6 de outubro e 206.220,24 em 8 de outubro, segundo a B3 (a bolsa brasileira). Compra direta de ações com vendas abaixo de R$ 20 mil por mês, isentas de Imposto de Renda sobre o ganho. CDB (Certificado de Depósito Bancário) com Imposto de Renda de 15% sobre o rendimento, alíquota para prazo acima de 720 dias. Simulação com CDI constante, apenas para fins didáticos. As premissas completas, e o que pode mudar cada uma, estão listadas logo abaixo da tabela.

A conta

R$ 10.000 e o preço de entrar depois da alta

SituaçãoVariaçãoResultado
Já estava na bolsa na sexta, 2 de outubro, e fechou a segunda+7,70%R$ 10.770,00
Entrou na terça, 6 de outubro, e fechou a quinta, 8+0,19%R$ 10.018,70
Ficou no CDB a 100% do CDI por 24 meses, líquido de IR+24,79%R$ 12.478,87
Ponto em que a bolsa empata com o CDB em 24 meses, partindo de 206.911,89+24,79%258.202 pontos

CDB: R$ 10.000 a 13,65% ao ano por dois anos rendem R$ 2.916,32 brutos e R$ 2.478,87 líquidos, com Imposto de Renda de 15%. Entrar na terça: fechamento de 205.835,29 para 206.220,24, variação de 0,19%. Simulação Finanças com Fran, outubro de 2026.

Os R$ 770 foram de quem estava comprado antes de saber o resultado, ou seja, de quem aceitou o risco de o resultado ser outro. Quem entrou na terça recebeu R$ 18,70 em três pregões, com toda a oscilação de uma semana eleitoral no caminho.

A linha que decide é a última. Para os R$ 10.000 movidos na terça baterem o CDB em dois anos, o Ibovespa precisa chegar a 258 mil pontos até outubro de 2028, uma alta de 24,79% sobre o preço de depois do rali. Se a Selic cair como projeta o Boletim Focus (a pesquisa semanal do Banco Central com as projeções do mercado), 13,50% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027, a barra cai para perto de 22%, e o índice ainda precisa passar de 252 mil pontos só para empatar. Pode acontecer, e a bolsa já entregou altas dessa ordem em outros períodos. A pergunta é se você apostaria nesse número na sexta-feira anterior, antes de saber o resultado. Na sexta, você não apostou.

O custo de longo prazo tem medida. Os 6,5 pontos percentuais ao ano que Barber e Odean encontraram entre quem mais operava e o mercado, aplicados a R$ 10.000 por dez anos, separam R$ 29.434 de R$ 51.895: R$ 22.460 de diferença entre operar por impulso e ficar parado no mesmo mercado.

As premissas desta conta, e o que pode mudar cada uma

Toda conta deste artigo depende de cinco premissas. Nenhuma é permanente, e vale conferir cada uma antes de usar o número de 258 mil pontos como referência.

  • CDI constante em 13,65% ao ano por 24 meses. É a premissa mais frágil. O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) está em ciclo de cortes, e o Boletim Focus projeta Selic de 13,50% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027. Com essa trajetória, o CDB rende perto de 22% líquidos em dois anos, e o ponto de empate cai para cerca de 252 mil pontos. Se a inflação acima do teto, 4,58% em 12 meses no IPCA de setembro, segurar os cortes, a barra sobe de volta. Conferir a cada reunião do Copom e a cada Focus das segundas-feiras.
  • Isenção de Imposto de Renda nas ações. Vale para quem compra ações diretamente e vende menos de R$ 20 mil por mês. Em fundos de ações ou ETFs (fundos negociados em bolsa) o ganho paga 15% de imposto, e o ponto de empate sobe para cerca de 267 mil pontos. Alterações na legislação de dividendos e de tributação de investimentos em discussão no Congresso podem mudar essa premissa.
  • Ponto de partida de 206.911,89 pontos. É o fechamento de 5 de outubro. Quem entrar em outro dia parte de outro preço, e o ponto de empate muda na mesma proporção: o que não muda é a alta de 24,79% necessária.
  • Os números de Barber e Odean são do mercado americano, de 1991 a 1996. O nível de retorno (17,9% ao ano) não se transfere para o Brasil de hoje. O que o estudo mede, e o que esta conta usa, é a distância entre quem opera muito e o mercado, 6,5 pontos ao ano. Os estudos da FGV mostram que, no Brasil, essa distância se repete e com perdas maiores.
  • O segundo turno, em 25 de outubro. O preço de 206.911,89 pontos embute uma leitura sobre o resultado da eleição que ainda não está decidido. Esse preço pode subir ou cair com a mesma velocidade de 5 de outubro, em qualquer direção, antes mesmo de qualquer conta de dois anos começar.

Como aplicar

Três regras escritas antes do próximo pregão, e não durante.

A reserva de emergência não vai para a bolsa em dia nenhum. Dinheiro que pode ser necessário em 30 dias não pode depender de um pregão, e numa semana eleitoral o índice oscilou 7,70% para cima e 0,52% para baixo em 24 horas. Os R$ 10.000 do exemplo saem da reserva, e por isso a conta começa errada antes de qualquer retorno.

Se você quer ter ações, a entrada é por regra, não por manchete. Valor fixo, data fixa, todo mês. A regra compra nos dias de alta e nos de queda, e tira da decisão o momento em que a sua confiança está mais alta e a sua informação, mais velha.

Antes de mover qualquer valor da renda fixa, escreva o número do empate. Para dois anos, hoje, é 258 mil pontos. Se você não apostaria nesse número na sexta-feira anterior, o rali de segunda não é motivo para apostar nele na terça.

Este artigo faz conta, e só conta. A decisão de ter ou não ações, e quais, é sua, de preferência tomada num dia sem manchete.

Fontes

  • Barber, Brad M.; Odean, Terrance. Trading Is Hazardous to Your Wealth: The Common Stock Investment Performance of Individual Investors. The Journal of Finance, volume 55, número 2, 2000, páginas 773 a 806. 66.465 famílias, 1991 a 1996, retorno de 11,4% ao ano para as que mais negociavam contra 17,9% do mercado.
  • Chague, Fernando; De-Losso, Rodrigo; Giovannetti, Bruno. Day Trading for a Living? FGV EESP, texto para discussão, 2019, atualizado em 2020. 97% das pessoas que persistiram por pelo menos 300 pregões perderam dinheiro; 0,4% ganharam mais do que um caixa de banco.
  • Chague, Fernando; De-Losso, Rodrigo; Giovannetti, Bruno. As pandemias de COVID-19 e de day trade no Brasil. Revista Brasileira de Finanças, setembro de 2025. Perdas brutas de R$ 9,9 bilhões entre o início da pandemia e dezembro de 2023, média de R$ 10,2 mil por pessoa.
  • Fischhoff, Baruch. Hindsight is not equal to foresight: the effect of outcome knowledge on judgment under uncertainty. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 1975. Base experimental do viés de retrospectiva.
  • Fechamentos do Ibovespa de 5, 6 e 8 de outubro de 2026 e fluxo estrangeiro de R$ 10,06 bilhões em 5 de outubro: B3, via CNN Brasil, Forbes Brasil, Money Times e Gazeta Mercantil.
  • CDI de 13,65% ao ano: Banco Central do Brasil, série 4389, consultada em 9 de outubro de 2026.
  • Projeções de Selic do Boletim Focus (13,50% no fim de 2026 e 12,00% no fim de 2027): Banco Central do Brasil, 28 de setembro de 2026.
  • IPCA de setembro de 2026 (4,58% em 12 meses): IBGE, 9 de outubro de 2026.
  • Isenção de Imposto de Renda em vendas de ações de até R$ 20 mil por mês: Lei 11.033/2004, artigo 3º. Tabela regressiva do Imposto de Renda em renda fixa: Receita Federal, Instrução Normativa vigente.

Sobre a autora

Fran Romancini passou 20 anos dentro do sistema financeiro e hoje ensina do outro lado da mesa. Conheça a história completa.

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