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Cenário e atualidade

Bolsa bate recorde e dólar volta a R$ 5 depois do 1º turno: o que o mercado precificou

Flávio Bolsonaro 47,03%, Lula 45,16%, segundo turno em 25 de outubro. No pregão seguinte, o Ibovespa fechou a 206.911,89 pontos, alta de 7,70%, a maior em mais de seis anos, e o dólar caiu 4,12%. Quatro dias depois, o IPCA de setembro veio em 0,82% e levou a inflação acumulada a 4,58%, acima do teto da meta.

Fran Romancini

Fran Romancini

Educadora Financeira · 20 anos no sistema financeiro

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Bolsa bate recorde e dólar volta a R$ 5 depois do 1º turno. Ibovespa +7,70% em um dia.

O que aconteceu

No domingo, 4 de outubro, o primeiro turno terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos (56.104.268 votos), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em segundo, com 45,16% (53.876.617 votos), segundo a totalização do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro. As pesquisas de setembro apontavam Lula à frente no primeiro turno, e a ordem nas urnas saiu invertida.

Na segunda-feira, 5 de outubro, o Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) subiu 7,70% e fechou a 206.911,89 pontos, a maior alta diária em mais de seis anos e o primeiro fechamento da história acima de 200 mil pontos. O dólar caiu 4,12%, a R$ 5,0022, a maior queda diária em mais de oito anos. Investidores estrangeiros compraram R$ 10,06 bilhões líquidos em ações na B3 (a bolsa brasileira) nesse único pregão, o maior fluxo diário de 2026. Os juros futuros (contratos negociados na B3 que mostram a taxa que o mercado espera para os próximos anos) recuaram ao longo de toda a curva.

Nos dias seguintes, o movimento perdeu força, e nada voltou ao ponto de partida. Na terça, 6, o Ibovespa cedeu 0,52%, para 205.835,29 pontos, e o dólar fechou abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio. Na quinta, 8, o índice fechou a 206.220,24 pontos e o dólar a R$ 5,0241.

Nesta sexta, 9, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, a inflação oficial) de setembro: 0,82%, acima dos 0,73% esperados pelo mercado. Em 12 meses, a inflação acumula 4,58%, acima do teto de 4,50% da meta perseguida pelo Banco Central (3,00%, com tolerância de 1,50 ponto para cima ou para baixo). A energia elétrica subiu 7,98% no mês e respondeu sozinha por 0,32 ponto dos 0,82%. Passagens aéreas subiram 9,66% e combustíveis, 1,41%. Os nove grupos de produtos e serviços pesquisados subiram. O INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que corrige o salário mínimo e os benefícios do INSS) acumula 4,29% em 12 meses.

O número que importa

Os 7,70% de um único dia medem o tamanho da surpresa, não a opinião do mercado sobre quem deveria governar. Preço de ação, de dólar e de juro futuro carrega, todo dia, uma probabilidade para cada cenário de política econômica. As pesquisas de setembro atribuíam uma probabilidade baixa à ordem que saiu das urnas. Quando o resultado apareceu, essa probabilidade foi reescrita em um pregão, e o preço andou de uma vez o caminho que, com pesquisas mais certeiras, teria andado aos poucos ao longo de semanas.

O conteúdo dessa aposta é conhecido e vale registrar sem torcida: o mercado leu o resultado como aumento da chance de uma agenda de contenção de gastos a partir de 2027, e é essa leitura que derruba juro longo, atrai estrangeiro e valoriza o real. Trata-se de uma expectativa sobre política fiscal futura, não de um veredito sobre o país, e expectativa muda. O segundo turno está aberto, e a mesma mecânica que precificou o resultado de 4 de outubro em um dia pode precificar o de 25 de outubro em outro, em qualquer direção.

O que isso muda no seu bolso

O dólar a R$ 5,00 chega ao seu bolso devagar, e só se o patamar durar. Eletrônicos, remédios importados, trigo, passagem e hospedagem fora do país ficam mais baratos em reais com semanas ou meses de atraso, porque o estoque das lojas foi comprado ao câmbio anterior. Um dólar que volte a R$ 5,30 depois do segundo turno desfaz o efeito antes de ele aparecer na prateleira.

Nos juros, duas forças puxam em direções opostas. A eleição derrubou os juros futuros longos, e é com essa curva que os bancos definem a taxa dos CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e dos Tesouros prefixados: o prefixado oferecido nesta semana paga menos do que o da semana passada, e quem já tinha prefixado contratado viu o papel valorizar. O IPCA de setembro puxa o outro lado: inflação acima do teto da meta deixa o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) mais cauteloso para seguir cortando a Selic (a taxa básica de juros), hoje em 13,75%, o que sustenta o rendimento dos pós-fixados por mais tempo. O Boletim Focus de 28 de setembro já esperava IPCA de 4,99% em 2026, e o dado de setembro reforça esse número.

Na bolsa, a conta mais simples é a que menos gente faz: a alta de 7,70% foi de quem já estava comprado na sexta-feira. Quem entrou na terça pagou o preço de depois. A diferença entre as duas situações, e o que ela faz com a sua confiança, está no artigo a conta do excesso de confiança, publicado hoje.

Até 25 de outubro, bolsa, dólar e juros vão oscilar mais do que o normal a cada pesquisa divulgada. Reserva de emergência e decisão de longo prazo não se apoiam em pregão.

O que acompanhar daqui para a frente

Tudo o que está nesta nota é uma fotografia de 9 de outubro de 2026. Quatro coisas podem mudar o quadro, e vale conferir cada uma antes de tomar decisão com base nele.

  • O segundo turno, em 25 de outubro. A reação de 5 de outubro precificou um resultado que ainda não está decidido. Pesquisas até lá, e o resultado em si, podem mover bolsa, dólar e juros na direção contrária com a mesma velocidade.
  • O patamar do dólar. O efeito nos preços de produtos importados só aparece se a cotação ficar perto de R$ 5 por semanas. Um retorno a R$ 5,30 cancela o efeito antes de ele chegar à loja.
  • A próxima reunião do Copom, em novembro. Com o IPCA acumulado em 4,58%, acima do teto, a decisão sobre o ritmo de corte da Selic pode mudar a conta de prefixados e pós-fixados. A Selic de 13,75% e o CDI de 13,65% usados aqui valem até essa reunião.
  • O Boletim Focus das próximas segundas-feiras. As projeções de IPCA (4,99% em 2026) e de Selic (13,50% no fim de 2026, 12,00% no fim de 2027) são as de 28 de setembro e tendem a ser revistas depois do IPCA de setembro e da eleição.

Fontes

  • Resultado do primeiro turno (Flávio Bolsonaro 47,03% e Lula 45,16% dos votos válidos, segundo turno em 25 de outubro): TSE, totalização de 4 de outubro de 2026.
  • Ibovespa a 206.911,89 pontos (alta de 7,70%) e dólar a R$ 5,0022 (queda de 4,12%) em 5 de outubro de 2026: CNN Brasil e InfoMoney.
  • Fluxo de investidores estrangeiros de R$ 10,06 bilhões na B3 em 5 de outubro, maior do ano: Gazeta Mercantil, com dados da B3.
  • Ibovespa a 205.835,29 pontos em 6 de outubro e dólar abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde maio: Forbes Brasil.
  • Ibovespa a 206.220,24 pontos e dólar a R$ 5,0241 em 8 de outubro: Money Times.
  • IPCA de setembro de 2026 (0,82% no mês, 4,58% em 12 meses, energia elétrica +7,98%, passagens aéreas +9,66%, combustíveis +1,41%) e INPC (4,29% em 12 meses): IBGE, 9 de outubro de 2026.
  • Meta de inflação de 3,00% com tolerância de 1,50 ponto: Conselho Monetário Nacional.
  • Selic em 13,75% ao ano: Copom, decisão de 16 de setembro de 2026. CDI de 13,65% ao ano: Banco Central do Brasil, série 4389, consultada em 9 de outubro de 2026.
  • Projeções de IPCA e Selic: Boletim Focus, Banco Central do Brasil, 28 de setembro de 2026.

Sobre a autora

Fran Romancini passou 20 anos dentro do sistema financeiro e hoje ensina do outro lado da mesa. Conheça a história completa.

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